A casa caiu

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Seguindo a linha “vou ver um filme sem ler sinopse e sem ver trailer” que rege a minha vida, fui assistir ao filme Casa Grande esse feriado (02/05) e fiquei com várias considerações positivas e negativas sobre.

Casa Grande conta a história de Jean, o playboy no 3º ano do ensino médio que não sabe direito o que quer da vida e precisa atender às aspirações de uma família carioca conservadora. O seu pai, Hugo, é o típico homem-hétero-cis-branco cheio de privilégios e que acha que já sofreu muito na vida e que agora vivencia a ruína da sua estrutura econômica e familiar (interpretado por Marcello Novaes). Junto ao elenco principal temos a mãe refinada que fala francês à mesa, a filha de 14 anos com um papel minúsculo de 5 falas (polêmicas na maioria das vezes, mas que não são levadas à sério) e Luiza, uma adolescente negra que estuda na rede pública do Rio, mora próximo à Rocinha e frequenta os bailes de forró do Centro (o oposto que a família espera de uma namorada para o primogênito).

O filme foge totalmente àquele estigma preconceituoso de que produção brasileira é comedia pastelão ou só mostra sexo, violência e favela. Apesar de ter todos os recursos para tal (como algumas cenas no morro, a eterna preocupação com a violência do Rio por parte dos pais e as pegações adolescentes), ele foca muito nas diferenças sociais entre os personagens da Casa Grande, os empregados e a pressão familiar e pontua em diversas cenas do filme a problemática das cotas raciais com argumentos muito bem colocados pela parte de quem as defende (Luiza) e as visões batidas e superficiais de quem é contra como a típica “tem que consertar a base” (Hugo).

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Embora eu tenha dado umas risadas em falas irônicas ou cenas de humor leve, o filme fica arrastado em muitos sentidos. Por não ter um grande clímax central e partir de um roteiro relativamente simples focando em um personagem de pouca complexidade (Jean) a falta de uma boa trilha sonora prejudicou o filme. As cenas são bem calmas e o plano permite que você acompanhe bem os detalhes do cenário e do que está acontecendo o que é bom, mas também cansa.

Acho que a experiência é válida por se tratar de um filme nacional e por colocar em evidência uma problemática do nosso país, a desigualdade social, se valendo do vestibular e das cotas, mesmo que a discussão não passe do almoço de domingo.

 

 

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O cisne negro do jazz

whiplash-poster Li isso de um crítico no guia da Folha um dia antes de ir ao cinema assistir Whiplash. O crítico não poderia ter feito melhor comparação. Sempre tive pouquíssimo contato com o jazz, mas de uns meses (3 meses) para cá isso tem mudado aos poucos. Já escutei algumas coisas no Grooveshark e até assisti uma apresentação de jazz. Acho que estou aprendendo a gostar. No começo tinha a impressão de que era música de fundo, mas exatamente como Andrew diz em uma das cenas do filme “Jazz não é para todo mundo”. WhiplashBloodyDrums_large O filme é uma incansável corrida à perfeição e ao reconhecimento. Bem como Nina (Cisne Negro), Andrew não mede esforços para se superar a todo momento e ganhar o reconhecimento de seu professor. As cenas de seus ensaios eram tão chocantes que chegaram a me dar uma certa agonia em ver aquele mesmo movimento, repetidas vezes e cada vez mais e mais rápido. Vale destacar que a obra traz de volta Buddy Rich, um dos grandes bateristas da historia do jazz, com sua habilidade e velocidade e com grande destaque na era do swing, Buddy era incrível nos improvisos, sendo um revolucionário no estilo. Os grandes filmes de jazz sempre mostraram a história de grandes instrumentistas como: Por volta da meia noite (Round Midnight – 1986) e Bird (1989) que contam respectivamente a historia do pianista Bud Powell e do saxofonista Charlie Paker. Já Whiplash abre as portas para um novo olhar, de como um baterista é importante em uma banda bem como todo o funcionamento do grupo. Poucos conhecem nomes como Art Barkley e Ed Shaughnessy, não tão lembrados como Miles Davis ou John Coltrane. O filme dá a chance aos que não conhecem o jazz descobrirem a loucura de Buddy e como a música continua viva em bares, festivais e nos sonhos de muitos estudantes e amantes da música. Whiplash é eletrizante, assim como Buddy Rich executando Caravan em sua bateria. http://www.youtube.com/watch?v=94DeieWZgTM

As três letras da liberdade: PCT

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Acho que não poderia ter escolhido melhor filme para ver sozinha no cinema. Livre é bom, independente das críticas ou dos clichês, eu gostei da experiência e como me fez refletir.

Ele é o terceiro filme sobre trilhas que eu assisto. Ambos histórias reais. Comecei com “Na natureza selvagem”, depois assisti (sem querer) “127 horas” e essa semana fui matar minha curiosidade e ver a Reese Witherspoon no cinema. O que todos tem em comum? Alexander Supertramp, Aron Lee Ralston e Cheryl Strayed decidiram caminhar distâncias absurdas para fugir dos próprios problemas e se conhecer. Mas óbvio que os problemas não ficam na nossa cidade natal, eles acompanham você aonde quer que você vá.

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A trilha de Cheryl aconteceu em 1995 mas parece muito atual, principalmente por causa do feminismo bem explorado em diversas cenas do filme colocando em jogo a fragilidade de uma mulher em meio à um lugar ardiloso e com encontros inesperados. Em mais de uma cena, acontece o questionamento de “uma mulher fazendo trilha sozinha?”. E o “você é feminista? Não parece.”.  Assim que ela vai avançando na Pacific Crest Trail, você vai descobrindo mais sobre sua história e entendendo o que a levou até aquele ponto.