Primeira quinzena e as leituras

literaturaCostumava fazer um post para cada livro que lia, mas como essa quinzena passou e já consegui ler 3 livros, achei melhor já contar tudo de uma vez 🙂

  • Contos Novos – Mário de Andrade

Como me arrastei para ler esse livro. Lia um conto, parava, lia outro. Tenho esse livro desde o ensino fundamental, quando precisei ler o conto “O Peru de Natal” para uma prova. Anos se arrastando, resolvi pegar e ler de uma vez os nove contos.

Na época eu não tinha muita noção, mas agora ao ler a obra completa vejo como Mário, com delicadeza, retratou o cotidiano da classe média e da classe trabalhadora. Todos os contos trazem um quê de cotidiano, misturado por vezes com uma ironia machadiana. Meu favorito foi o primeiro “Vestida de Preto”, conta do amor infantil de primos e como isso afetou a vida adulta deles.

  • Antigamente era janeiro – Humberto Mariotti

Esse livro ganhei em 2012 de uma garota do cursinho. Na época eu estava passando por uma fase complicada e a menina resolveu me presentear com esse livro, que já tinha sido de grande ajuda para ela no passado.

Não lembrava bem da história ou o que nele poderia me ajudar, mas em tempos de crise, por que não? Esse é um daqueles livros que você sente vontade de grifar várias passagens, se vê no lugar dos personagens e chega a se perder em certas passagens, densas. Fala do relacionamento de um homem (o narrador, sem nome) e Diana. Mas tira o foco dos dois e faz o leitor pensar em relacionamentos em geral, em como é estar junto fisicamente mas não estar, o sentimento de não pertencimento. Me trouxe inúmeras reflexões que guardo para conversas de bar.

“Nós estamos separados, sim. Muito mais do que nós mesmos imaginamos. Aliás, jamais estivemos de outro modo a não ser separados” (p.157)

  • O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

Minha irmã estava deitada na minha cama outra noite, eu lendo Contos Novos e ela lendo esse. Depois que ela foi dormir fiquei com vontade de ler. Na verdade, acho que é um livro que todos deveríamos ler, de tempos em tempos. Ser adulto é esquecer de coisas simples, muitas vezes.

IMG_3223Boas leituras para vocês, com direito à foto antiga e Julya de cabelão!

1984 ou O Último Homem na Europa

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Sabe quando você termina de ler um livro mas fica em dúvida se gostou ou não? Pois é, eu achei que esse sentimento fosse passar depois de discutir sobre o livro em um grupo de leitura, com amigos e pesquisar mais sobre o tema, mas o sentimento não passou, e eu ainda estou vivendo uma relação de amor e ódio com esse livro.

Imagine viver em um mundo que é totalmente dividido em três grandes blocos: Oceânia, Lestásia e Eurásia. Além de haver apenas três grandes aglomerados de massa terrestre, você é terminantemente proibido de sair do aglomerado ao qual você pertence e visitar outro. Por quê? Pelo simples motivo de que esses aglomerados estão sempre em guerra e quem com quem exatamente não importa. A única coisa que importa é que Guerra é paz. 

Imagine que do mesmo modo que você não tem liberdade para se locomover livremente, você também não tem liberdade para usar o que deseja, compra o que deseja e nem mesmo pensar o que deseja pelo medo intrínseco de ser acusado de pensamento crime ou duplipensamento e depois disso não ter certeza sobre suas condições futuras, podendo até mesmo ser vaporizado, e não ter nenhum registro da sua existência. Tudo isso, pelo simples fato de que Liberdade é Escravidão (e vice versa).

Por último, imagine que muitas das coisas que você já aprendeu e poderia aprender não servem para nada. Que sua memória precisa ser muito maleável para constantemente se ajustar às concepções de um Partido sobre o que foi o passado e o que é o presente. Isso significa que se seu amigo, de um dia para o outro, deixou de existir, é porque realmente ele nunca existiu. E você precisa aceitar. Precisa aceitar que 2+2=5 se essa for a vontade do Partido. Ignorância é Força.

São esses três pilares que sustentam a realidade em que Winston Smith vive, no ano de 1984, o futuro que George Orwell imaginou em 1948 em uma crítica literária aos sistemas nazifacistas (ditaduras totalitárias de Hitler e Mussolini) e socialistas (Revolução Russa).

O livro, consagrado no século XX, considerado como livro de cabeceira e leitura obrigatória por muitos, conta como seria (im)possível viver na falácia de um sistema anti-capitalista, o Socing, e como a situação é insustentável para um único homem. Por esse motivo, melhor explicado na 3ª parte da história, é que o romance quase se chamou “O Último Homem na Europa”. Mesmo tendo se envolvido com Júlia, uma “camarada” do Partido (cuja liderança é do Grande Irmão) Winston é considerado o único homem com anseio de verdade e liberdade, premissas que o fizeram se rebelar contra o sistema.

Por Grande Irmão entenda exatamente o que é: O Big Brother que Globo transmite. Em todas as casas e locais públicos, existe um equipamento chamado teletela que além de transmitir uma programação tem o poder de vigiar as pessoas. O Grande irmão está de olho em você, camarada.

O livro tem cerca de 360 páginas, eu consegui ler em mais ou menos 2 semanas. Ou seja, a história é bem fluida e fácil de ler. A linguagem é boa e mesmo em capítulos grandes (por exemplo, em alguns capítulos da 2ª parte Orwell praticamente escreveu outro livro dentro do próprio livro) eu não me cansei e consegui levar (leve em consideração que 75% do livro foi lido dentro de ônibus e metrô).

Eu ainda tenho minhas dúvidas quanto a relação de Winston e Júlia, e sobre o final. Confesso que no primeiro momento, desaponta. Mas se não fosse o que foi, se fosse o que eu queria (e todos os demais leitores), então talvez a obra não fosse “A mais sólida e mais impressionante de Orwell” como disse o crítico V.S. Princhett e nem Orwell seria “O maior escritor do século XX” como nomeou o Observer. (Citações da contracapa). Acho que ainda preciso amadurecer a ideia, talvez discutir com outras pessoas que tenham outros pontos de vista. Por ora, tudo o que eu posso fazer é indicar a leitura e reflexão.

São Bernardo – Graciliano Ramos

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O romance conta a história de Paulo Honório, um homem grosso, rude e ambicioso. Muito conservador, julga que está sempre certo e se incomoda com comportamentos pró-revolucionários. Diante disso, vê em sua mulher um grande incômodo: além do ciúmes (Madalena é muito bonita e admirada por muitos homens da fazenda), repudiava o fato dela ser uma intelectual – ao meu ver, o protótipo da mulher feminista.

Por se tratar de Graciliano Ramos, o engajamento político é visível. As conversas políticas tem caráter notadamente DIREITA x ESQUERDA (mas não vamos chapar a história) podemos pensar em formação cultural, tradições e costumes, o papel da mulher na sociedade (principalmente pela visão rural) e fortes resquícios de coronelismo. Tudo isso em uma narrativa curta e fácil de ler!