Coisa frágil

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Era um feriado qualquer, religioso, talvez. Daqueles que emendam vários dias da semana e você se perde na contagem do tempo. “Que horas são? ”, “Que dia estamos da semana? ”, “Que dia do mês é hoje? ”. São perguntas recorrentes nesses dias de inércia em que a rotina dá um sossego e aquieta a cabeça, acostumada com a loucura do dia a dia.

Seguindo contra as recomendações de todos que habitavam o apartamento 41, ela decidiu acordar cedo em pleno feriado. Ela precisava dormir, as olheiras a consumiam, mas já tinha decidido que acordaria cedo. “Vai fazer o que a manhã toda? ”, perguntaram. Ia fazer o que bem entendesse, respondeu.

Às 6h decidiu se levantar da cama. Ficou vagando pelo corredor, do quarto para o banheiro, do banheiro para o quarto, do quarto para a cozinha. Acendeu um cigarro, o último do maço, e foi passar o café no coador de pano. Café para um.

Desceu para correr, mas a fadiga dominou seu corpo em questão de meia hora. Tinha voltado a fumar, não estava mais em boa forma como antes. Decidiu parar a corrida para comprar um novo maço de cigarros. Percebeu que não tinha um isqueiro e teve que voltar à banca para comprar um novo. Foi quando olhou para o outro lado da rua.

Um lindo arranjo de flores estava jogado na calçada. Orquídeas, tulipas, astromélias. O nome da flor pouco importava, nunca foi ligada à botânica, muito menos a nomenclaturas que não levavam à nada. De que adianta saber o nome de todas as flores se não ia comprar nenhuma? O arranjo aos poucos se soltava e as flores rolavam pela calçada.

Como pedestres que atravessam na faixa, as flores seguiam o sentido que o vento mandava, vindo em sua direção. Algumas se desgarraram, outras continuaram amarradas juntas. E ela, fixa na tarefa de observar as flores. Esquecera que estava acendendo um cigarro e queimou a ponta dos dedos.

Percebeu que um homem gritava do outro lado, sujo, com muitas roupas sobre o corpo e nenhum sapato, o homem se desesperara ao ver o arranjo de flores se soltando e sendo levado pelo vento. “As flores da minha mulher”, ele gritou. Por quanto tempo ele gritara? Quantas pessoas ouviram?

As flores, tão frágeis, seguiam rolando pela rua. O homem, tão frágil, se comovia com a cena e saia correndo para apanhá-las. E ela, tão frágil aos olhos do tempo que passava, não teve capacidade de avisar que o semáforo abrira. Somos coisas frágeis.

Não diga “oi” se não tiver tempo de dizer um bom “adeus”

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Já é mais de meia-noite e eu ainda não entrei na balada. A fila não anda, e cresce nos lados. Penetras, espertinhos, VIP’s. Estão todos passando na minha frente. Eu consigo escutar minha música favorita tocando lá dentro e meus pés já estão cansados sem eu nem ao menos ter dançado. “Uma dose de tequila, R$5,00”, passa uma moça oferecendo pela fila. Talvez o álcool me ajude.

Na noite anterior ele me mandou uma mensagem, dizendo o quanto seria legal se eu estivesse lá, que queria muito me ver, mesmo tendo ficado semanas afastando, alimentando minhas dúvidas. Eu decidi ir, mesmo sozinha, mesmo com chances de dar tudo errado. Eu coloquei o meu melhor vestido, arrumei meu cabelo, me olhei no espelho centenas de vezes antes de sair de casa, e meus amigos dizendo que era melhor não ir. Eu fui.

E agora não consegui entrar, já tinha mandado várias mensagens e ele nem sequer visualizava. Mas agora eu já estava ali. “Outra tequila, por favor”. Depois da quarta dose, eu finalmente estava na porta, a hostess pede meu documento, a segurança revista o interior da minha bolsa, procedimentos.

As luzes parecem mais fortes do que nunca, a música mais alta do que de costume. E agora, para onde eu vou? Começa a bater um arrependimento. Por que eu estou fazendo isso mesmo? A consciência não me deixa quieta, continua martelando na minha cabeça, me lembrando do quão ridícula eu sou. Mas vai dar tudo certo, ele vai estar lá, eu sei.

Nada no bar do andar de baixo, nada no andar de cima. A fila da chapelaria está enorme, mas nem sinal dele lá. A fila do banheiro anda rápido, enquanto saem dois, entram mais três. Nada dele. Nada dele em nenhum lugar, nem no fumódromo, logo ele que fuma tanto quanto uma chaminé, fuma tanto que comecei a fumar, quando dei por mim já estava comprando um maço por semana. Meus amigos reprovavam.

Resolvo então beber alguma coisa, uma cerveja gelada sempre caiu bem. As tequilas já estão fazendo efeito e eu começo a dançar, sem me importar com a dor nas pernas, sem me importar de estar sozinha, nada importa agora, nem ele.

Por instantes, eu esqueço como é a voz dele, o cabelo, já nem consigo lembrar direito do rosto, do cheiro, do jeito. Ele virou uma massa quente que ficava do meu lado da cama enquanto eu dormia. Uma massa que me acompanhava no cinema dada a minha incapacidade de fazer isso sozinha. Eu não poderia lembrar dele por completo enquanto não conseguisse nem ao menos ser completa para mim.

Já são cinco horas da manhã. Percebo que a festa está esvaziando e que eu não conversei com ninguém. Daqui a pouco os seguranças vão começar a pedir para o pessoal sair, e a fila para o caixa deve estar gigantesca. Perco mais 40 minutos porque entrei na fila do cartão, quando na verdade só tinha levado dinheiro.

A fila de táxis também está grande, e nessa hora eu penso como seria bom ter simplesmente ficado em casa. Finalmente eu encontro um carro disponível e quando vou chegar perto da porta para entrar, outra pessoa está se dirigindo ao carro. Uma moça loira de cabelo comprido, vestido preto curto, de mãos dadas com ninguém menos que ele. Ele.

Tesouro na praia de linóleo

 

Projeto Chão Que Eu Piso
Projeto Chão Que Eu Piso

Na década de 90 as coisas eram mais baratas. Não tinham inventado essa moda de minimalismo e as casas eram enfeitadas com resinas, vasos de cerâmica e outras quinquilharias. As pessoas tinham necessidade de encontrar tudo em um lugar só. Panos de prato, de chão, vassouras e rodos ao lado de cartelados, ferramentas de brinquedo, bonecas e enfeites para a casa. Meu avô sabia muito bem disso e por isso, em 1999, decidiu abrir seu próprio negócio.

A modesta loja de 1,99 não tinha placa, não tinha nome oficial no toldo vermelho, mas eu sabia que se chamava Julya Presentes. Para a criança com seus míseros cinco anos de idade era o que importava.

Todas as tardes, depois da escola, eu acompanhava minha avó até a loja e passava o resto do dia entre a poeira dos estandes, conversando com clientes, fazendo amizade com desconhecidos, lendo nos fundos da loja. Eu gostava de brincar com as bonecas que estavam embaladas, arrumar as resinas de anjos de modo que contassem histórias e fingir que o chão liso era um grande mar em que eu podia me arrastar o dia inteiro, “nadando”.

Um dia voltei para casa tão suja da poeira do chão que levei uma bronca da minha vó. O short amarelo pastel, conjunto da regata de frutinhas, estava preto. A loja ficava de frente para uma das avenidas mais movimentadas de Guarulhos. Um dia me pediram para anotar as placas de carro parados no semáforo, um modo que minha avó pensou para me entreter enquanto eu aprendia a escrever números e letras. Em apenas dois intervalos eu já tinha preenchido uma página do caderninho! Imagine toda essa poluição no chão da pequena lojinha e, consequentemente, em mim.

Depois desse dia, decidiram que eu não podia mais brincar de praia dentro da loja e fingir que o chão liso era o mar. Não podia me arrastar nem um pouco que fosse naquele linóleo laranja, só podia fazer coisas que garantissem a limpeza da minha roupa, como, por exemplo, ficar sentada atrás do caixa.

O começo foi chato. Muitos clientes faziam brincadeira comigo, me tratavam como atendente. Comecei a levar livrinhos, papel, lápis de cor, para detrás do caixa. O que zangou o meu avô, reclamão que só ele, teimava em dizer que não tinha espaço para trabalhar com as minhas “tralhas” lá. Onde já se viu chamar os tesouros de uma criança de cinco anos de tralha? Passando tanto tempo atrás do caixa, e sem muitas opções de como me divertir, comecei a prestar atenção em cada coisa que ficava ali. Geralmente brincava com as resinas que ficavam na vitrine inferior, mas meu avô também reclamava dizendo que eu iria quebrar tudo.

Uma tarde, cinco minutos sozinha, caixa aberto. Notei o que viria a ser meu próximo tesouro. Um tesouro real, material e mais valioso que lápis aquarela dentro de um estojo: moedas brilhantes. Eu passei a pegar todas as moedas que julgava valiosas, ou seja, as douradas. Moedas de R$1,00, R$0,50 e R$0,05 não tinham a cor que eu julgava ser valiosa. Todas as moedas que eu conseguia juntar iam para meu cofrinho. Discretamente, eu acreditava estar cultivando meu tesouro como um pirata.

Algumas discussões aconteceram nas semanas seguintes. Vi meu avô se preocupar, se irritar e se descabelar com os poucos fios grisalhos que tinha. “É dinheiro o problema? ” Eu perguntei, inocente, enquanto ele olhava para o caixa aberto. Decidi entregar meu ouro, guardado por tantas semanas no cofrinho. “Tudo bem vovô, pode usar meu tesouro”. Ele recebeu, sem dizer uma palavra, olhando para minha avó.

Depois daquela tarde, eles decidiram que eu podia voltar a brincar de praia, mar, cachoeira… E voltei a ter as roupas pretas de poluição.