Eu esqueci de te contar

Eu esqueci de te contar, mas me mudei de novo. Para quem estava com medo de se mudar pela primeira vez, a segunda oportunidade veio de repente em uma madrugada e eu aceitei sem repensar. Agora divido um apartamento menor com mais duas amigas, continuo perto do metrô, faço diariamente uma viagem de 18 andares de elevador e realizei a grande conquista adulta de ter uma cama de casal (mas ainda ter poucas opções de roupa de cama).

Eu também esqueci de contar que meus dotes culinários melhoraram. Nada MasterChef, mas estou comendo mais proteínas do que atum em lata. Finalmente aprendi a fazer macarrão e ele não gruda mais, agora sei passar um café que, modéstia a parte, fica bem gostosinho, e meu tempero para o frango nunca decepcionou.

Eu não contei que já resolvi qual vai ser o formato e tema do meu TCC. 2017 será meu último ano na Faculdade, e para concluir o curso vou fazer uma monografia sobre os padrões estéticos femininos no telejornalismo, analisando o Jornal Nacional. Vai dar trabalho? Vai. É um formato que eu não estou acostumada a trabalhar? É. Eu já pensei em seguir carreira acadêmica? Não. Mas foi o que me deu vontade de fazer e vai ser isso.

Eu também deixo de contar, todos os dias, que eu sinto uma saudade enorme do jeitinho sistemático da minha mãe, das avoações da minha irmã, do carinho dos meus avós, e dos almoços em família, comer sozinha é muito chato.

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O espaço é meu

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Imagem meramente ilustrativa para rechear esse post

Vamos ignorar o fato de que hoje fazem dois meses que eu não escrevo nada aqui? Não, não vamos.

Estava com um tempo livre na última semana e fui ver o que tinha de bom no Bloglovin (pra quem não sabe é um ótimo site em que você segue seus blogs favoritos e pode acompanhar as atualizações sem ter que ficar visitando todos, uma economia de tempo e trabalho que dá gosto, já falei dele aqui) e eu fiquei com vontade de voltar a me dedicar à esse espaço.

O problema é – além da falta de tempo e organização – que eu sempre entro em uma onda de que “quase ninguém lê”, “a pessoas não se interessam pelo que eu escrevo” (tô generalizando bem porque eu já recebi uns comentários muito gracinha de uns textos X que já postei aqui e achei bem lindo, continuem), “que ideia boba”, “não quero falar tanto da minha vida”, “quero uma coisa séria”… E por aí vai.

Mas peraí. Esse blog não é meu portfólio (pode até ser uma referência das minhas habilidades com WordPress, vá lá), é meu espaço pessoal, eu que dito as regras e posso escrever sobre o que quiser, ignorar esse caos que tá lá fora e encher a timeline de coisas fofinhas e gifs de gatos, se eu quiser. Pra quem eu preciso ser séria? Por que eu tenho que me importar tanto com o que eu escrevo ou deixo de escrever? Isso não deveria ser uma daquelas coisas que a gente faz pela gente, e porque gosta? Mas é, Julya.

Então é o seguinte, eu quero fazer um trato, mas esse trato é comigo mesma, de que eu vou me importar menos, me cobrar menos. Não preciso ficar olhando as barrinhas do analytics pensando “nossa que bosta” (tá, é até legal olhar essas coisas mas não com uma ~cobrança desnecessária de audiência~ meeeu Deus, por quê eu ligo pra isso?!).

Então além dos textos zuados que eu posto porque fiz para a Faculdade – bendito Welington que força bimestralmente minha criatividade – eu vou voltar a fazer outras coisas aqui. Naquele ritmo maravilhoso que cêis sabem, bem parecido com a minha frequência afetiva. (Inclusive, recomendo esse texto muito legalzinho sobre frequência afetiva).

Ideias são bem vindas. Correntes, memes? Aceito. Entrei no grupo gracinha Se organizar, todo mundo bloga, não olhei muita coisa lá, mas tô aceitando toda ajuda (principalmente porque descobri que joguei minha lista de possíveis ideias fora).

Coisa frágil

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Era um feriado qualquer, religioso, talvez. Daqueles que emendam vários dias da semana e você se perde na contagem do tempo. “Que horas são? ”, “Que dia estamos da semana? ”, “Que dia do mês é hoje? ”. São perguntas recorrentes nesses dias de inércia em que a rotina dá um sossego e aquieta a cabeça, acostumada com a loucura do dia a dia.

Seguindo contra as recomendações de todos que habitavam o apartamento 41, ela decidiu acordar cedo em pleno feriado. Ela precisava dormir, as olheiras a consumiam, mas já tinha decidido que acordaria cedo. “Vai fazer o que a manhã toda? ”, perguntaram. Ia fazer o que bem entendesse, respondeu.

Às 6h decidiu se levantar da cama. Ficou vagando pelo corredor, do quarto para o banheiro, do banheiro para o quarto, do quarto para a cozinha. Acendeu um cigarro, o último do maço, e foi passar o café no coador de pano. Café para um.

Desceu para correr, mas a fadiga dominou seu corpo em questão de meia hora. Tinha voltado a fumar, não estava mais em boa forma como antes. Decidiu parar a corrida para comprar um novo maço de cigarros. Percebeu que não tinha um isqueiro e teve que voltar à banca para comprar um novo. Foi quando olhou para o outro lado da rua.

Um lindo arranjo de flores estava jogado na calçada. Orquídeas, tulipas, astromélias. O nome da flor pouco importava, nunca foi ligada à botânica, muito menos a nomenclaturas que não levavam à nada. De que adianta saber o nome de todas as flores se não ia comprar nenhuma? O arranjo aos poucos se soltava e as flores rolavam pela calçada.

Como pedestres que atravessam na faixa, as flores seguiam o sentido que o vento mandava, vindo em sua direção. Algumas se desgarraram, outras continuaram amarradas juntas. E ela, fixa na tarefa de observar as flores. Esquecera que estava acendendo um cigarro e queimou a ponta dos dedos.

Percebeu que um homem gritava do outro lado, sujo, com muitas roupas sobre o corpo e nenhum sapato, o homem se desesperara ao ver o arranjo de flores se soltando e sendo levado pelo vento. “As flores da minha mulher”, ele gritou. Por quanto tempo ele gritara? Quantas pessoas ouviram?

As flores, tão frágeis, seguiam rolando pela rua. O homem, tão frágil, se comovia com a cena e saia correndo para apanhá-las. E ela, tão frágil aos olhos do tempo que passava, não teve capacidade de avisar que o semáforo abrira. Somos coisas frágeis.